insegurança da escrita
A insegurança a
acompanhava. Ela escrevia e escrevia, escrevia muito, e às vezes nem tanto,
pois pensava muito mais do que escrevia. Muitas coisas nem saiam da sua mente
pois pensava não compensar que fossem para o papel. Mas eram tantas ideias...
tantos textos, poesias, diálogos, enfim, palavras soltas que formavam inúmeros
conjuntos de pensamentos.
Tinha muito
medo. Medo de ser incompreendida, de que os outros lessem e não gostassem, a
julgassem, criticarem sem motivo algum. Nem todos tem um coração bom. Sabia que
o mundo é assim, e é inevitável, as pessoas são muito más quando querem. O que
não queria era sofrer mais do que já sofria, enfrentar mais problemas do que já
tinha, lidar com mais do que já tinha que lidar. Escrever é uma
responsabilidade, consigo e com o outro.
A escrita é
autoral, e não só pelo fato óbvio da escrita, mas porque um pedaço do autor
sempre estará evidente no que ele escreve. Em alguma parte da escrita, em
alguma entrelinha, os mais profundos sentimentos, o íntimo do autor é revelado,
mesmo que ninguém consiga perceber isto, pois se trata do particular. E as
palavras também tem o poder de tocar o ser humano, emocionar de modos até mesmo
inexplicáveis. É puro sentido, é arte. Até mesmo a escrita científica,
racionalizada, é uma arte: a arte de escrever cientificamente, de expressar
ideias de determinada maneira.
Ela amava
escrever, mas ao mesmo tempo odiava. Queria passar horas e horas escrevendo
tudo o que lhe viesse à mente, mas também preferia evitar isso ao máximo, pois
no fundo acreditava ser uma perda de tempo. Não podia renegar as demais
responsabilidades da vida e, aliás, se questionava até que ponto era bom
escrever só para si, pois não mostrava seus escritos para ninguém, ninguém
mesmo. A escrita era seu maior segredo, um segredo que trazia um enorme prazer,
mas uma enorme angústia dilacerante.
Pega um café,
uma água, escuta uma música e começa a escrever. Em minutos apaga tudo. De vez
em quando guarda, pois sabe que pensou tanto em determinada ideia que não podia
desperdiçá-la tão rapidamente. Assim que apaga sente um alívio, pois tem em
mente que está fazendo um bem para si mesma: “se ficará restrito a mim, não há
porque fazer isto, pois depois vou ler e achar tudo isto uma grande porcaria,
vou querer reformular tudo desde o início, assim como tudo que faço”. Mas
depois se arrepende. “Por que fui fazer isso? Por que eu não valorizo o que
faço? Se eu não me valorizar, quem é que vai?”.
E vivia aquele
grande paradoxo. O paradoxo da insegurança, que a impedia, mas que a movia. Não
escrevia pois sentia-se insegura ao pensar que ninguém gostaria do que
escreveu, até porque ela mesma acabava por não gostar da própria escrita. Mas
escrevia porque precisava colocar as ideias para fora, pois sentia-se insegura
ao pensar que logo não se lembraria mais do que pensou em escrever, e, além
disso, queria muito mostrar para todo o mundo o que escrevia, sabia que tinha
de enfrentar esse sentimento de incapacidade, encarar a insegurança de frente e
dispor-se ao risco.
Porém, era
fraca. Na verdade, sentia-se fraca para fazer tudo: para escrever e para não
escrever. Sentia-se insuficiente em qualquer um dos casos, sentia incapacidade,
insegurança.
Talvez o
problema não fosse a escrita em si e em todo esse fato, mas sim ela mesma.
Uma vez ouvi dizer
que todos os artistas são problemáticos, isso porque sentem demais. E o fato de
sentir demais e expressar todos os sentimentos por meio da arte é que dá a
beleza que tanto apreciamos. Sentia-se feliz ao pensar que era sensível e
profunda, que era sim uma artista, pois até mesmo a chamavam assim. Mas, para
ser um artista, é preciso expor, e ela guardava tudo.
Depois de pensar tudo isso, refletir
imenso sobre sua insegurança, sobre seus sentimentos, larga tudo e tenta se
ocupar com outra coisa. Varre o problema para debaixo do tapete. Até quando vai
deixar de fazer o que ama por medo dos outros? Até quando vai reprimir sua
arte? Até quando vai fingir que isso não é um problema real? Quanto tempo e
quantas palavras irá perder até perceber que, desde o princípio, deveria
compartilhar suas palavras com os outros?
Toda escrita revela traços do autor, todo
artista é problemático, toda palavra causa uma emoção.