insustentável leveza do ser

O ser é leve, mas não consegue nem mesmo se sustentar. Um amor, uma tristeza profunda, uma grande alegria, uma raiva dilacerante, a morte em si, a vida em sua complexidade. Ninguém é capaz de se suportar. Por mais leve que seja, ninguém é forte o suficiente para carregar-se.

Compartilhar com os demais. Seria este o segredo? Estar constantemente dividindo a própria vida com outros a fim de dividir o peso deste enorme fardo que chamamos de “vida”? Vida... E por que vida, se a cada dia morremos um pouco mais, cada dia mais perto da morte?

Às vezes o peso parece maior se compartilhado com outros. Carregamos o nosso e o do outro, enquanto este fica leve, livre para voar e desfrutar se sua insustentabilidade; só é insustentável devido a ação de outro alguém. O mundo é injusto. Quantos carregam mais do que deveriam, sentindo todas as dores, tendo seu corpo lesionado, ferido, enquanto outros pairam livremente sobre o ar, respirando fundo, sentindo todo seu corpo e mente. Um peso tão grande que, de tão pesado, quase nos empurra para o inferno. Nos faz sentir que realmente deveríamos estar lá, que nossa função no mundo é carregar todas as insustentabilidades. Eternos sofredores amargurados.

Segue carregando todos, sente que deve fazer isto. Por quê? Não sabe, apenas faz. Sofre, sente tamanha indignação, mas continua. Às vezes, só, consegue deixar tudo de lado, até mesmo sua insustentabilidade, e voa. Voa em pensamentos, voa em físico, em espiritual, até mesmo não se reconhecendo. É livre para ser quem é; o melhor momento de sua vida. Mas depois de todo êxtase, vê tudo aquilo que a prende ao chão. É seu dever, sua função. Carrega tudo novamente. Cansa-se imediatamente. Continua seu caminho rotineiro, sempre o mesmo, e sempre será.

A insustentável leveza do ser... Era isto que queriam dizer? Dizem que somos tão leves, mas quem suporta tamanha leveza? E quem é assim tão leve a ponto de não ser insustentável? A realidade de uns nunca será como a dos outros, e, na verdade, nenhuma realidade é igual a outra. Um universo cheio de distinções e diferenças.

Me dê sua bagagem. Quero que me conte tudo sobre sua vida, quero todas as experiências, quero saber tudo de seu mais íntimo ser. Ficarei aqui, presa ao chão, lhe vendo pairar no céu, livre, enquanto seguro tudo o que te prende. É para isto que sirvo. Talvez você sinta vontade de dividir este peso comigo algum dia, mas somente algum dia, talvez nunca. E tudo bem: certas realidades devem ser conformadas. Viveremos assim para todo o sempre.  

Pés no chão, cabeça para o alto. Observa toda a imensidão do céu, uma atmosfera cheia de indivíduos desprendidos, libertos. Será que deveria estar ali com os demais? Mas e sua insustentável leveza, quem a carregaria? Aliás, quem carregaria tudo o que sempre vem carregando?

Espera, esperançosa. Algum dia todas as levezas serão sustentadas por algo mais forte que tudo. Algum dia todos terão plena liberdade e despreocupação. Algum dia, somente algum dia... Está a espera desde grande dia.