espelho

Você diz que sou insegura, que tenho muitos medos. Diz que preciso mudar, como se todos os problemas fossem apenas sobre mim. Diz que sou fraca, sem saber de todas as dores que suportei, sem saber de todos os momentos que permaneci sozinha, sem o amparo de outrem, sem suporte algum.

Dizem que vemos o outro como se fossemos nós. Se me elogia, é porque tens esta qualidade em si; se reclama de minha atitude, é porque faz o mesmo. Você espelha tudo o que é e o que faz em mim. Mas não sou seu espelho. Sou algo muito além do que si próprio.

Quis ir embora após dizer muitas vezes que não suportava a solidão, agora você está com tantas outras companhias, mas o espelho não. Pediu por tantas mudanças, mas não percebeu que o espelho estava pedindo o mesmo. Sentiu, sentiu seu corpo explodir de tanto que tinha para dar, e ignorou o mesmo do espelho, que tinha os mesmos sentimentos, senão até mais.

O ser humano é um egoísta que se espelha em qualquer outro ser. No fundo, tem que mudar a si próprio, porém aponta para o outro; sente o maior dos desprezos, porém diz ser o outro; sente raiva, ódio, uma cólera dilacerante, sempre apontando ao outro à causa de sua miséria. 

Aponta ao espelho, sem perceber que jogou uma pedra que o quebrou em mil pedaços. Quebrou a si próprio, e irá continuar até que não exista mais espelho nenhum. É o fim. Tentará reconstruir e perceberá todos os fragmentos, todas as partes de si próprio, todas aquelas que sempre diz ser do outro; e no fundo, a própria imagem. Seu próprio espelho, seu próprio eu.