é medo de sofrer
É medo de sofrer. Sentir novamente os sentimentos ruins que experimentou amargamente. Sentir o coração tão apertado e dolorido, como se fosse explodir de tanta angústia.
Transparece uma frieza glacial, como uma rocha, nada maleável. Nada parece a atingir. Mas, assim como a Terra, possui um magma abrasador, incandescente, e que, quando explode, corrói e devasta. Autodestrutiva. Esta é a consequência de sua inconstância, da sensibilidade, da profundidade.
Ela não queria ser assim, porque é difícil. Seria muito mais fácil ser simples, previsível, descomplicada. Queria saber lidar melhor com os próprios sentimentos, queria saber lidar melhor com a vida.
Parada de fronte a janela, observando a chuva que cai turbulenta, carregada. O barulho das gotas pesadas. Aquela chuva tão intensa, barulhenta, descontrolada, assim como seu interior. Ela quer sair, se molhar, sentir o peso da água em sua pele, sentir frio, quer gritar no meio da rua como se não houvesse ninguém que a ouvisse, queria chorar e fazer suas lágrimas se confundirem com a própria chuva. Mas permanece estática, apenas mais uma observadora da vida.
Ela tem medo até mesmo de fazer o que quer.
Sente vontade de chorar, ali mesmo, sozinha. Mas logo passa. Antes sofria tanto pelo próprio sofrimento, porém hoje se acostumou, sabe que não irá mudar. Sai de perto da janela, fechando as cortinas. Prefere ignorar do que lidar com a dura realidade de ser quem é. Ela já sofre sozinha, pelo motivo que for, então prefere ignorar o resto, para não sofrer mais ainda. Só um sofrimento é minimamente aceitável: o seu próprio sofrimento interior.
Vive só, mas por consequência. Sabe que seu jeito devastador é algo que somente ela consegue suportar, e ainda nem isto. Não quer afetar mais ninguém; os outros não tem culpa. Acomodou-se com o isolamento, com o exílio de seus sentimentos. Criou uma redoma em torno de si mesma para guardar apenas para si as emoções cheias de inconstância. A solidão se tornou sua vida.
Respira fundo para suportar mais um dia, mais uma hora, mais um segundo. Respira fundo pois não sabe o que está por vir; ela não sabe os passos que dará no futuro, porque tudo é incerto em sua vida.
Talvez devesse mudar, ou talvez não. Já sabe que sofre, sabe que sensível, então prefere permanecer assim, do que ter que lidar com mais sofrimentos. Lidar com o desconhecido é uma aventura, e pensa que não conseguiria a encarar. As vezes, permanecer é o melhor que o ser humano pode fazer. Tem medo de destruir os últimos resquícios de vida que possui, tem medo de arruinar consigo mesma devido seu próprio jeito de ser.
Deita, respira fundo, dorme. Amanhã é mais outro dia.